sábado, 19 de abril de 2014

Gordos, gulosos e mal informados

Adaptado de um texto escrito em 2005!

Os portugueses estão mais gordos, mais gulosos e mal informados. Consomem mais e pior. Empanturram-se de açúcares e gorduras, impelidos pelo marketing e pela publicidade. Engordam a indústria alimentar e a do açúcar e contribuem para as maiores epidemias mundiais.

Dados recentes comprovam que uma epidemia de diabetes e outra de obesidade estão a atingir o mundo, principalmente nos países mais desenvolvidos onde a sociedade do consumo e da abundância promove hábitos sedentários e uma alimentação exagerada em açúcar, gorduras e sal. Estamos a adoecer por comer demasiado.

De acordo com dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a diabetes mata mais do que a SIDA. Em 2005, em todo o mundo, existiam cerca de 177 milhões de diabéticos. Esse número chegará a 366 milhões até o ano 2030. Em 1985 eram apenas 30 milhões!

O problema é de tal modo grave que a OMS aprovou em Maio de 2004 a Estratégia Global para a Dieta, Actividade Física e Saúde. Nesse contexto, todos os países são convidados a desenvolver medidas de promoção da saúde, de educação e de actividade física.

A diabetes pode ser evitada com uma alimentação saudável e actividades físicas regulares. O controle adequado da doença pode retardar ou evitar complicações e muitos gastos. A OMS estima que os custos directos do tratamento desta doença cresçam dos 2,5% actuais para 15% nos orçamentos anuais de cada país em 2030!

A outra epidemia, a obesidade, pode ser contrariada também pela informação mais rigorosa sobre os prejuízos que os alimentos causam à saúde humana, pela actividade física mais continuada e pela educação alimentar.

Estas doenças são as maiores causadoras de morte e de gastos com a saúde nas sociedades desenvolvidas, necessitando de uma intervenção rápida e integrada dos governos. Todavia, como percebemos em Portugal, esta preocupação não faz parte das agendas governamentais.

Apesar do grave problema que se manifesta nas elevadas taxas nacionais de pessoas com tensão arterial elevada, com peso excessivo, com problemas derivados da diabetes, com deficiências cardiovasculares de diversos tipos, não temos uma política integrada de prevenção da obesidade e da diabetes. Quando um ministro fala em impostos, o outro, da Economia, chuta para canto. Não fosse ele um profissional das bebidas açucaradas e alcoólicas.

Efectivamente, embora se saiba há alguns anos da importância deste problema para a saúde pública, os sucessivos governos não defendem a saúde dos portugueses. 

Mas o que assusta mais é que este é um assunto envelhecido. Um tema tão importante do ponto de vista económico que, por exemplo, nos Estados Unidos da América, levou o cartel do açúcar a ameaçar o Governo de retaliações caso avançasse com limitações à quantidade de açúcar utilizada ou pretendesse limitar a publicidade aos alimentos!

Um trabalho da National Geographic portuguesa (de Agosto de 2004) demonstra bem como a indústria alimentar – utilizando imagens e produtos da Coca Cola, McDonalds e a Hersheys (uma marca de chocolates) – aumentou as suas doses desde 1900 até hoje, incrementando o consumo em quantidade e em calorias!

Em Portugal, já houve casos em que os refrigerantes subiram o teor em açúcar para serem mais apelativos e mais consumidos. Os rótulos, habitualmente, disfarçam o açúcar com o nome de dextrose, frutose, etc. Na Europa, sabemos que a política de rotulagem dos alimentos não consegue tornar evidente para os utentes a quantidade de açúcar de um alimento (bebida ou comida).

O excelente trabalho de informação da National Geographic aponta algumas doenças hepáticas, o cancro do cólon, as osteoartrites, a diabetes tipo 2, os acidentes vasculares cerebrais (tromboses) e outras doenças cardíacas como os mais importantes reflexos da obesidade. Mas, são apenas as mais comuns!

Ao mesmo tempo que desfrutamos dos estilos de vida mais luxuosos (pela sociedade de consumo que desenvolvemos no últimos anos), da abundância alimentar, do trabalho automatizado, do prazer sem esforço e do conforto, somos inquinados de açúcar e gordura. Isto porque a nossa escola não ensina nutrição, o Instituto do Consumidor não se mexe e o Ministério da Saúde dá prioridade às questões da gestão e do orçamento em vez de dar atenção à qualidade e bem-estar das populações.

Ou seja, somos enrolados – não sei se por vontade deliberada, influência alheia ou puro desconhecimento dos governantes – numa teia comercial de doenças causadas pela alimentação! Afinal, a doença mais mortal da actualidade é a combinação da comida com o estilo de vida, salpicada por pedacinhos de marketing irresponsável.

Não matam mas moem

Os alimentos com muito açúcar, o sal e a gordura são inimigos da saúde. A hipertensão aumenta. Mais de 30% das crianças portuguesas são obesas. A incidência da diabetes em jovens cresce. Há um «massacre diário» de publicidade a doces, a alimentos gordos e com sal. Gastamos parte do orçamento do Estado a tratar os seus reflexos. Será justo?

O número de obesos, de hipertensos e de diabéticos cresce de forma alarmante nas sociedades mais ricas e nas camadas de população com maior (e menor) capacidade de aquisição. Por este motivo, os gastos com a saúde têm aumentado nos países mais ricos e a Organização Mundial de Saúde elegeu o combate à diabetes, à hipertensão e à obesidade como áreas estratégicas da saúde no século 21.

Como demonstra a revista Proteste de Fevereiro de 2005, a publicidade televisiva aos alimentos e bebidas com baixo teor nutritivo, ricas em aditivos, gorduras, sal e açucares está em força. Representa quase metade do tempo dos anúncios destinados às crianças. A revista também alerta para o mau comportamento da SIC e da TVI que ultrapassam os limites legais estabelecidos para o tempo de apresentação de anúncios. Acusa as autoridades competentes de pouco fiscalizarem.

Assim, podemos intuir que a televisão é uma indutora de consumos doentios das crianças e de gastos acrescidos em saúde. Do mesmo modo, concordaremos que a publicidade a estes alimentos que não matam, mas moem, degrada a saúde e as finanças.

A publicidade faz promessas de prazer, propõe emoções e sentimentos positivos que levam as pessoas ao desejo de consumo. Podemos criar uma relação de causa e efeito que associa alimentos pouco saudáveis com algumas doenças e destas com os gastos do Estado.

Quando um pai, inconsciente, dá ao seu filho um euro, todos os dias, para comprar um refrigerante e um bolo com chocolate para o seu lanche na escola, promove o desenvolvimento de certas doenças a que a OMS se opõe. Com este acto individual, cómodo e irreflectido, cria boas condições para, mais tarde ou mais cedo, ter de se aumentar o orçamento da saúde para tratar a diabetes e a obesidade do seu filho!

Neste processo, todos somos responsáveis. Uns, deviam ter a decência de não emitir publicidade para além dos limites legais. Outros – as empresas de publicidade – num acto de responsabilização social, deveriam onerar mais os trabalhos sobre estes produtos. Os supostamente conscientes, como eu, deveriam ter uma acção mais decidida na proposta de soluções. Os pais, inconscientes, deviam preocupar-se mais com a saúde dos seus filhos em vez de lhes comprarem o último grito da consola de jogos.

Mas, o Estado é o que tem a maior responsabilidade no processo. Tem poder e não o usa. Controla os currículos educativos nas escolas, mas continua a preferir ensinar temas que são menos importantes do que os da saúde, da nutrição, da defesa do consumidor e da economia. Pode influenciar a educação do consumidor no trabalho, mas também não o faz. Pode e deve fiscalizar o cumprimento das leis da publicidade e da segurança alimentar e fá-lo com muitas debilidades.

O Estado é a única entidade com poder de regular o sistema e os mercados. Por exemplo, preocupa-se muito (e bem) com o mercado e a qualidade dos medicamentos, mas quando se trata da qualidade alimentar…a atitude é outra! Deixou avançar a BSE (a doença das vacas loucas) sem controlo. Mais tarde, a UE decretou o embargo aos produtos portugueses! E todos gritámos contra o abuso de poder da União!

Alguns propõem a proibição da publicidade. Não me parece que seja o caminho correcto. O Estado, poderia, antes, criar um imposto sobre os alimentos com açúcar, sal e gorduras (mais pesado a partir de determinados teores) e outro sobre a publicidade. Assim, aumentaria os preços ao consumidor destes dois produtos. Com o dinheiro destes impostos, poderia financiar directamente os doentes e as campanhas de sensibilização para consumos saudáveis. Mas não o faz. Porque razão? Será justo?

Com este comportamento, o Estado promoveria a consciencialização sobre este assunto e criaria as condições para a emergência de uma cultura mais exigente e responsável em todos os sectores da sociedade. Com medidas deste tipo, iria transferir empregos do sector da publicidade irresponsável para o da comunicação saudável. Criaria também novos postos de trabalho de educação e fiscalização. Todos ganhavam!

Mas, em Portugal, bem como noutros países do Ocidente, supostamente desenvolvidos e informados, é comum aceitarmos sem debate que a publicidade, a desinformação e o «deixa funcionar o mercado», bem como a irresponsabilidade ambiental, são desculpáveis!

Esta é uma evidente falta de sentido de responsabilidade comum. Representa falta de respeito colectivo. Não é o caminho do desenvolvimento. Padece do mesmo tipo de raciocínios e irresponsabilidades que levaram à ocorrência dos fenómenos violentos a que assistimos recentemente em França. Até quando manteremos esta absurda miopia? Será justo para alguém? 

Texto publicado na revista Medicina e Saúde (2005)

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O Carinho das Avós

O afeto que recebemos é um tesouro que temos para o resto da vida. O carinho guardado enquanto pequenos, transforma-nos. Ensina a Amar, a suportar as perdas e as frustrações que a vida nos traz.

O Carinho das Avós, como o de todos os que nos dão aconchego enquanto petizes, é um fonte de resiliência e de uma vida feliz. Por vezes, é a ela que vamos beber a alma para decidir, bem como a força para enfrentar contratempos, sentindo, que somos dignos e temos imenso para dar aos outros, mesmo que os bolsos estejam vazios! 

Este é o valor invisível dos «velhotes» que nos cuidaram e educam. Prolonga-se no tempo, por gerações sucessivas de netos. É um pilar de felicidade coletiva que importa preservar se formos conscientes.

Nós (os dois, marido e mulher), tivemos muita sorte ;)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Empreendedorismo responsável

Queremos uma Humanidade Saudável e Feliz. Devemos aproveitar todos os contextos para aprender e para desenvolver uma atitude empreendedora e responsável. Precisamos de construir uma cultura libertadora que permita expressar os talentos. Assim desenvolveremos uma comunidade próspera e livre capaz de edificar a sua Felicidade.

Será que felicidade e prazer são a mesma coisa? A resposta é negativa. A Felicidade é um estado de Paz (interior e exterior) e Harmonia, que perdura no tempo e funda-se num sentido de construção da Humanidade. O Prazer, essa coisa maravilhosa que se sente quando se conquista uma vitória ou se pratica sexo, é efémero. Por vezes, tolda a nossa visão sobre a vida.
O Empreendedorismo é a chave da construção da Felicidade!
Insensato, dirá o leitor. Se assim é, porque vivemos numa sociedade à beira do colapso? O empreendedorismo de carácter empresarial, tem servido, acima de tudo, para criar uma economia baseada no consumo. Cria prazer, satisfaz as necessidades e desejos dos clientes e, de acordo com o pensamento económico e de gestão mais corrente, acelera os processos de circulação de mercadorias e bens para gerar riqueza. Por isso, cria a bebedeira do consumo, a cultura do efémero.
            Mas empreender não é só criar uma empresa com fins lucrativos e acelerar o ciclo dos produtos. Existe um outro leque de acções empreendedoras de extraordinária importância que prestigiaram Ghandi, Churchil, Madre Teresa de Calcutá, Einstein, Agostinho da Silva, entre outros.
Afinal, o que representa Empreendedorismo, essa palavra desconhecida dos dicionários portugueses?
É a capacidade de pensar, planear e concretizar uma acção, investindo energias e tempo, com um sentido determinado, obtendo resultados. No fundo, é o acto de «concretizar uma empresa» como a viagem de Vasco da Gama à Índia. Na componente económica, é a capacidade de transformar as ideias em mais-valias e em bem-estar, gerando processos de troca com valor acrescentado para as partes envolvidas. A virtude do empreendedorismo é a de concretizar o pensamento.
O Empreendedorismo é, acima de tudo, uma atitude que conjuga pensamento (de preferência consciente e responsável) e acção (respeitável). Algo que, em Portugal, é pouco desenvolvido em casa, raramente nas escolas e não é acarinhado nas empresas!
Esta atitude está presente quando nascemos!
Sem qualquer treino, desde esse momento, procuramos as condições para a sobrevivência. O acto de empreender baseia-se no mesmo processo de vontade que nos impulsiona para aprender a comunicar e a falar, a caminhar, a andar de bicicleta (assumindo riscos), a imitar os outros, sempre no sentido de alargar o poder de acção e de interacção. Está no nosso «código genético» de sobrevivência e crescimento.
Todavia, neste país simpático, essa vontade de crescer e de concretizar é maltratada na infância e na família onde a educação promove a repressão das ideias diferentes e da acção. Até dá prémios à inacção! Na escola, ensinamos as crianças a repetir em vez de criarem. Nos empregos, colocamos as pessoas debaixo das ordens de patrões e chefes de repartição, em vez de conviverem com líderes empreendedores e aprendentes. Vamos matando a atitude empreendedora, à medida que a criança se faz homem. Fazemo-lo de modo indolor e brilhante!
Belmiro de Azevedo tem razão quando afirma que Portugal tem poucos líderes. Também tem poucos empreendedores, poucos professores que desenvolvam talentos, poucos gestores que criem contextos organizacionais aprendentes e poucos pais que invistam verdadeiramente no apoio à auto-construção dos filhos!
Sem estes, é difícil manter a competência aprendente e empreendedora que permite que cada um construa a sua Felicidade com uma preocupação ética. É uma questão de educação.
Nos últimos anos, assistimos a uma mudança radical na sociedade e nas crenças do mundo ocidental. É uma transformação que tem como início a crise do petróleo de 1973, prolonga-se pelos anos oitenta com o pós-modernismo, passa pela Conferência do Rio e a elaboração da Agenda 21 em 1992, para se acentuar a partir de 1997 com a Web e a massificação da Internet. Este período, parece culminar com o 11 de Setembro, sublinhado pelo 11 de Março em Madrid. Nessas datas, ficou patente o horror que podemos viver se esta mudança for feita sem a integração de todos.
Este ciclo com cerca de 30 anos representa a infância e a juventude de uma nova sociedade global e de uma economia digital que não conhecíamos! Esta crise de crescimento da Humanidade, leva-nos à Sociedade do Conhecimento (e da Aprendizagem), uma sociedade globalizada pelo pensamento filosófico e científico e na acção dos mercados. É um novo mundo, que mal vislumbramos. Novos desafios e oportunidades.
Para o enfrentar, devemos construir uma atitude de matriz empreendedora e aprendente nas comunidades territoriais, nas organizações, nas equipas, nas famílias e nos indivíduos. Temos de promover ambientes de aprendizagem e de expressão das competências que permitam obter sucesso e felicidade.
Devemos, por isso, acarinhar um empreendedorismo empresarial responsável, humanista, aprendente e sustentável que, no campo empresarial, é desenvolvido com a abordagem de Responsabilidade Social das organizações (visível em www.ethos.org.br ou em www.bcsdportugal.org), um dos motores da mudança para a Sociedade do Conhecimento e da Aprendizagem.
            Mas, também precisamos de cultivar as lideranças democráticas e emancipadoras, a cultura da descoberta e do risco controlado, a cidadania. Sem estas, o extraordinário progresso da sociedade e da tecnologia que nos permitiu prolongar a esperança de vida desde os 40 até aos 90 anos, tem pouco sentido.
Aquilo a que assistimos agora, fruto de um mau empreendedorismo e do percurso histórico de uma sociedade insensata, é à vitória de uma visão míope que não responde ao âmago da questão: como construir felicidade para as pessoas?
Esta visão, desvalorizou continuamente a espiritualidade e a religiosidade, numa atitude que importa contrariar. A falta de cultivo da primeira, afasta-nos do sentido de coerência do indivíduo com a Humanidade, através das organizações e dos territórios, e a falta de atenção à segunda, desliga-nos dos princípios morais que equilibraram as sociedades. Esquece também os contributos dos pedagogos e filósofos do início do século 20 e as recentes descobertas das Neurociências sobre a componente da emoção e da vontade.
            Felizmente, a carência de uma cultura empreendedora, de aprendizagem de responsabilidade democrática e de cidadania pode ser contrariada pela acção consciente da família, das organizações, da comunidade e da escola. Basta que queiramos empreender nesse sentido, planeemos e invistamos nessa acção.

O tempo, encarrega-se do resto, e os nossos netos escreverão a nossa História!

Texto escrito em Março de 2006, numa altura em que tratava continuamente estes temas!

domingo, 23 de março de 2014

Os 3 eixos da mudança

De que me serve ser rico se não puder sair à rua em segurança? Para que serve ser rico se não puder ser aceite na minha diferença e feliz na minha abordagem? 

Será mais importante estabilizar a economia hoje ou reformar o processo educativo das mais jovens gerações, para que a saibam manter sustentável? E qual é a importância da educação para a saúde, da educação física e mental ou relacional?

A Economia não é a base de tudo! Mas, a consciência e a negociação, talvez. Por isso, precisamos, por ordem decrescente de importância, de:
        
1.       Mudar a Escola (um investimento de longo prazo)
A escola deve ser um instrumento de educação cívica e de partilha de conhecimento, baseado em processos de participação e cidadania ativa responsável. Não se pode circunscrever a um centro de formação e de reforço de desigualdades.

2.       Mudar a governação política (urgente)
A política tem de ser uma nobre arte de debater, negociar e promover o desenvolvimento, numa abordagem plural e criativa. Não é um modo de vida (cheio de privilégios) para incompetentes, medíocres e corruptos, que se assemelham a bandidos.

3.       Mudar a comunicação social (mais urgente ainda)
Para ser um espaço de exploração de ideias diversas, de consciencialização plural, diversificado. Não pode ser um espaço manipulado por indivíduos eticamente inaceitáveis.

E estes serão os 3 alicerces da criação de uma boa Economia do futuro. Tudo o resto, são cuidados paliativos e manipulação de papalvos! 

terça-feira, 4 de março de 2014

O Carnaval dos bandidos


O ódio dos jovens políticos do PSD aos funcionários públicos tem origem na forma como eles olham para aqueles, mas acima de tudo, pelo obstáculo que os mais competentes representam para a sua estupidez e incompetência!

Efetivamente, na função pública – nobre função de promover uma sociedade mais equilibrada através do serviço ao outro – existem 3 tipos de «colaboradores» que os irritam por se constituírem como obstáculos às «suas vontades».

Uns, são «os ronhas», aquela malta que se encontra em todas empresas (públicas e privadas), que pouco fazem, pouco sabem, mas adoram dizer mal! Normalmente, socorrem-se dos discursos do desgraçado e inscrevem-se nos sindicatos para estarem protegidos na sua incompetência. Denigrem o valor do sindicalismo sério. Normalmente, transformam-se em líderes sindicais, prestando um péssimo serviço à sua profissão. Felizmente, são um número ínfimo. Mas chateiam!

Depois, existe um grupo de carneiros esforçados/dedicados que com pouca criatividade desenvolve o seu trabalho por rotina, tendo dificuldade em mudar as práticas, aceitando as ordens dos «seus superiores» (antigamente competentes, hoje em dia, normalmente, jovens inexperientes dos partidos do poder)!

Por fim, há um grupo, possivelmente o que tem maior representação, de «Competentes». Para os jovens imberbes da política, estes profissionais são terríveis e um alvo a abater porque: sabem mais, sabem fazer, conhecem as leis, são tecnicamente consistentes, são inteligentes e adaptativos (do melhor que conheço) e, por isso, uma ameaça à incompetência dos «meninos da política»!

Ou seja, no entender desta malta (políticos imberbes do PSD/PP ou de qualquer liberalismo estúpido e desregulado), os funcionários públicos são uma corja que convém abater. Além do mais, custam dinheiro que podia ser usado nas consultorias dos amigos.

Por isso, toca a denegri-los e castigá-los, apesar de serem polícias, juízes, enfermeiros, médicos, reguladores, etc. ou seja, funções essenciais à vida civilizada. Se só existisse mercado, os seus serviços apenas estariam ao alcance de uma pequena quantidade de cidadãos!

Por isso, hoje, que é dia Carnaval, os funcionários públicos mais sacrificados e competentes foram trabalhar enquanto todo o resto da malta descansa e «os ronhas» se mantêm na mesma. Por isso, amanhã, todos pagarão mais impostos! Afinal, até merecem, porque votam neles! 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Que ENORME E VIL INJUSTIÇA!

Na maioria de lares (asilos) de 3ª idade que visitei e conheço, de norte a sul, posso afirmar que, nos últimos 10 anos, houve uma imensa melhoria. 

Mas, aquilo que é  triste de ver é o deserto afectivo que a desresponsabilização dos filhos, a mania da Qualidade e o excesso de técnica criaram.

Nesses espaços, onde, habitualmente estão pessoas debilitadas, na sua 4ª idade (oitenta e poucos anos), perdendo a cada dia um pouco mais da sua esperança e das suas condições físicas de autonomia, o que os «velhos» mais querem é um dedo de conversa.

Aliás. Não é um dedo. É, efectivamente, que algo ou alguém lhes mostre que não são um fardo, apesar dos seus limites. Não são lixo. São PESSOAS que, numa fase avançada da vida, depois de terem dado vida e cuidado de muitos outros, estão numa situação de dependência, depressiva, carregando consigo um pesado fardo de sofrimento, por ausência de afeto!

Mas, efectivamente, este é apenas o fim de um ciclo de envelhecimento a que nós, sociedade hipermoderna (ultra estupidificada) devotamos aqueles que já não trabalham!

O processo começa muito antes, desde o início da desocupação laboral. A organização social e a maioria de nós encarrega-se de lhes mostrar que pouco valem ou são um fardo. Ou seja, nos olhares, nos silêncios e nas palavras soltas e distraídas que por vezes nos saem da boca, comunicamos-lhes, que já estão fora do nosso progresso, já não são dignos de viver na nossa sociedade, … porque já nos dão pouco!

E, um dia, um estúpido de um ministro, chega ao ponto de afirmar qualquer coisa como: «não podemos manter os gastos que temos com as pessoas que não trabalham!»

Por isso, não só estou triste com a falta de Cultura e de Decência deste governo, como me revolta que estes estúpidos, e os que neles votaram, possam decidir a vida dos mais velhos e das gerações seguintes com base num conjunto de ideias e princípios totalmente desumanos.

Cada PESSOA, nova ou velha, é uma enciclopédia única de testemunhos que mais ninguém viveu, que, um dia, na velhice, «ninguém» quer ouvir e carregar. Que ENORME E VIL INJUSTIÇA!